24/05/09
15/01/09

Descobri aquele que é provavelmente um dos maiores motivos de eu ser uma pessoa tão estranha. Há alguns meses, uma menina que eu não conhecia precisou de umas partituras que eu possuía. Fomos até a copiadora juntos, tarefa de vinte minutos ao máximo. Na outra oportunidade que tivemos de conversar, ela me apresentou a um amigo como sendo um “cara muito estranho”. Recorde? Talvez. Lógico que eu quis saber o que a levou a achar isto. Então ela disse: “Ah, sei lá... você fica olhando enquanto a gente fala, prestando atenção...”. Na época eu não consegui entender o que podia haver de mau naquilo, tamanho meu desconhecimento do mundo.
Aquele foi o início da minha desconfiança. Recentemente, algumas outras evidências me levaram a ter a certeza. Se eu tenho uma oportunidade de ter uma boa conversa, seja com quem for, aquilo pra mim é um momento único. Conhecer lados que eu não conhecia de amigos antigos, conhecer novas pessoas, discutir sobre música, sobre existencialismo... é como encontrar petróleo no Alaska. Eu só não sabia o quanto eu era capaz de assustar as pessoas com isto. Talvez, nos dias de hoje, as pessoas não estejam acostumadas a serem ouvidas, e por isso eu as assusto. Ou talvez eu seja um louco mesmo, e um dia eu vou aprender a falta de educação que é prestar tanta atenção quando alguém fala comigo. Seja o que for, se eu já aparentei querer te devorar vivo(a), me desculpe, com alguma probabilidade não era essa a minha intenção.
Me sinto vazio.
O vestibular devorou minha criatividade...
Eu também deletei a última postagem, do dia 07/10/08, pois ela não tem nada a ver com a proposta do blog... é como se eu quisesse desabafar em público algo que ninguém fosse entender de qualquer maneira (apesar de eu achar que a Rúbia pegou a idéia).
Apesar disso, pode ainda haver uma certa diferença do que foi postado antes para o que está para ser postado... bom, ano novo, vida nova, é o que dizem.
25/08/08
Quando se espera algo, se cria uma expectativa. Da expectativa, espera-se que surja ansiedade, daí em diante só se pode esperar pela danação daquilo que era esperado. Ansiedade faz com que aquilo que esperávamos se torne aparentemente muito superior àquilo que se poderia esperar, o que não quer necessariamente dizer que o esperado era de qualquer forma tão bom quanto se esperava antes disso tudo destruir as coisas.
Então, o que esperamos? Esperamos que a espera venha despedaçar nossos corações esperançosos.
Embalado pela revolta
26/05/08
Recordo-me de pensar comigo mesmo a respeito do que eu sabia de uma bomba nuclear. Pensava se eu deveria ir para algum lugar me refugiar, mas eu sempre acabava concluindo que eu estava bem ali como estava, com as companhias em que me encontrava.
Logo, ouvi o som de um avião voando razoavelmente baixo. Havia chegado o momento. Vi o aeroplano dar um rasante tão impossível quanto desnecessário, no momento em que deixava a bomba cair. E lá ela estava, extraordinária, flutuando em direção ao chão. E, ao chegar ao seu destino, causou uma primeira onda, aparentemente uma forte corrente de ar, que se espalhou velozmente por todo o raio de alcance.
Olhei para as garotas, que se perguntavam o que havia sido aquilo, apesar de não demonstrarem qualquer temor. Percebi que também estava tranqüilo, por mais improvável que isto pudesse ser, e, calmamente, contei às minhas acompanhantes o que se passava. Nos entreolhamos, e logo uma delas, com tamanha brandura, disse: “então todos nós devemos nos abraçar o mais forte que pudermos”.
Aquilo soou como a resposta natural a tudo. Logo, nos demos um abraço coletivo como jamais havíamos experimentado anteriormente. O mundo poderia realmente acabar ali, no conforto dos braços daquelas garotas. A sensação transcendia o apelo sexual. Era algo mais nobre, que eu poderia apreciar pelo resto da minha vida, mesmo se ela fosse durar mais que os próximos segundos.
Ninguém disse mais nada, e logo veio a segunda onda, similar à primeira. Seguida dela, a explosão final, bem mais lenta que as ondas anteriores, e inimaginavelmente mais bela. Uma verdadeira supernova, que se tornava maior aos poucos, e que enchia meu coração de dúvidas a respeito do que viria após aquilo.
Na verdade, foram as únicas coisas que se passaram em minha cabeça nos meus últimos momentos de vida: como seria estar finalmente livre desta prisão carnal? E assim eu meditava, até o momento em que nossos corpos foram consumidos por aquela cúpula da destruição. No último momento do sonho, eu me lembro de estar extremamente feliz com a idéia da libertação. Tudo era branco.
Logo, percebi que me encontrava de olhos abertos, fitando a branca parede do meu quarto.
Não havia liberdade, afinal.

Embalado por: Concerto para Violino e Orquestra Opus 77, Adágio – Johannes Brahms
12/05/08
Porém, sou um demônio incompreendido. Não é fácil ser o que sou. A vida de um ser tão maléfico quanto eu não é tão interessante e divertida quanto se pode imaginar. A princípio, o inferno: sim, eu vivo em um, mas ele não me agrada muito. Neste meu injusto reino, tenho, por obrigação, causar terror em todos que vivem comigo, mesmo que não seja minha intenção. Com uma freqüência maior do que muita gente pensa, tento ser um sujeito suave, porém, inevitavelmente, sempre acabo soando como a minha real natureza demanda. Muitas vezes eu estou apenas tentando sugerir às pessoas que o que elas estão fazendo naquele momento seria desapropriado, o que causa total e imediata interrupção das atividades, não por elas terem entendido a lição, mas sim porque elas me temem profundamente, e imaginam quão cruéis serão as conseqüências de me contrariar.
Afinal, quando foi que um demônio deu conselhos a alguém.
Mesmo um demônio precisa fazer alguns truques para sobreviver. Um destes seria se passar por humano, o que muitas vezes se torna útil por várias razões. Porém, na minha escola de artes demonísticas, esta foi a matéria que quase me jubilou. Prefiro não ter que tentar ser o que não sou, nunca fiz isto bem e imagino que jamais o farei.
De qualquer forma, eu seria um humano, se eu pudesse o ser de coração. Mas a vida não me deixou escolha, e todos sabem como o destino pode ser cruel com aqueles que não têm a sorte. Alguns nascem para serem idolatrados nas altezas, mesmo que não tenham feito nada de realmente bom para merecer. Os mais felizes vivem sua vida no anonimato.
Quanto a mim, sou a ira do perverso, mas eu estou tentando, incessantemente, ser o pastor.
Embalado por: Dança Macabra - Saint Saens
30/04/08
Sinto constantemente que estou em queda livre em um lindo e grotesco abismo, de rochas pintadas em vermelho e laranja. Estou caindo há tanto tempo, que não me recordo quando ou porque comecei. Mesmo assim nunca cheguei ao fundo, e há anos vejo apenas a penumbra do meu destino incerto. Porém, muitas vezes durante minha queda, me aventuro em olhar para o horizonte, e o que vejo é de tirar o fôlego: cidades ao longe, pessoas que eu não conheço, do tamanho de formigas, levando suas vidas de maneiras intrigantes. Lugares que eu sempre quis visitar. O lindo e imenso mundo no qual eu vivo. A convivência diária deveria ter acostumado meu organismo à sensação da queda, mas ele ainda sente os enjôos com frequência. Algumas vezes sinto a vontade de apenas curtir a viagem e deixar de lutar contra, pois afinal a resistência me parece inútil, porém o peso na consciência é mais doloroso, e me impede de parar de tentar, por mais que eu saiba que isto fatalmente me matará.
Algumas vezes o abismo tenta se comunicar comigo:
-Afinal, qual o seu problema? O que eu ofereço não é suficiente para você? Deveria ser grato por estar caindo em um abismo tão belo. Já parou para pensar quantas pessoas nem isto possuem? Você não nasceu para ser mais que isto: um corpo que despenca em um destino que você não pode prever ou sequer tentar mudar.
Tais palavras às vezes parecem vir de todos os lados possíveis, e as fontes se tornam tantas que eu passo a questionar a minha própria opinião a respeito.
Talvez eu tenha sido gerado no ventre deste abismo. Mas permaneço firme, pois em minha mente eu tenho a certeza de que apenas eu tenho o direito de escolha em qualquer assunto relativo à minha pessoa, e absolutamente ninguém jamais poderá me tomar este direito. Isto é minha essência.
Embalado por: Der Schwanendreher - Paul Hindemith

